VIDA..
"Iniciou-se
ele nas lides teatrais quando estudante da
Escola Politécnica, onde fazia os
preparatórios para o curso de medicina. Num
final de época, de parceria com Xavier da
Silva (mais tarde médico e Ministro da
Educação), escreveu a revista "Pl'a
Tangente", alegre peça de crítica
académica, plena de boa observação do
mundo, de sadio humorismo, que fez escola e
teve uma êxito sensacional. Nessa estreia
revelou o jovem escritor a sua grande
faculdade criadora, a sua espontânea graça
e espantosa facilidade no manejo de
trocadilhos de fino espírito, que,
praticamente, traçaram o caminho do futuro.
Abandonado
o projectado curso de medicina (por
dificuldades económicas, consequentes do
inesperado falecimento de seu Pai) e então
já funcionário bancário, o jovem escritor
foi arrastado pelo seu grande entusiasmo pelo
teatro. Ainda de parceria com o seu
condiscípulo e amigo Xavier da Silva,
escreveu a sua primeira comédia "O Olho
da Providência" que foi representada,
com grande êxito, no Teatro Ginásio.
Animado
pelo sucesso, escreveu depois, sozinho, as
seguintes comédias: "O Dr.
Zebedeu" - "O Trinca Espinhas"
- "Coelho & Leitão",
"Valente Balbino" e "Fura
Bolos". Já, então, disputado por
empresários e artistas, arrastado pelo
triunfo e servido pela sua espantosa
facilidade de efabulação e pela
espontaneidade da sua graça incomparável,
escreveu, sozinho, as seguintes revistas:
"Sem Rei nem Roque" - "Peço a
Palavra" - "O Arco da Velha" e
"Ponha-lhe Papas".
De
parceria com Bento Faria, escreveu a célebre
opereta "O Fado" (musicada por
Filipe Duarte), popularíssima e de grande
sucesso, que esteve muitos meses em cena e
foi, mais tarde, várias vezes reposta. Uma
publicação da época disse que este famoso
e popular autor "chegou viu e
venceu".
Por
essa época, de plena juventude, durante a
qual demonstrou a sua enorme capacidade
criadora, foi convidado para fundar a "Parceria
Rodrigues-Bermudes-Bastos",
que rapidamente se tornou célebre no teatro
português e cujas obras passaram a ser
disputadas pelos empresários, ávidos de bom
teatro e de receitas compensadoras. Da
colaboração dos "Três Grandes"
nasceram obras que honram o teatro português
e tiveram, na sua raíz, o espírito mordaz,
crítico e observador do grande mestre Gil
Vicente. Uma das primeiras peças triunfantes
da "Grande Parceria" foi a fantasia
"O Sonho Dourado", que foi posta em
cena no Teatro Apolo, com extraordinário
êxito. Vieram, depois, as célebres
revistas: "De Capote e Lenço", que
esteve muitos meses em cena no Teatro
República (hoje São Luís), recheada de
espirituosos números de crítica política.
Esta revista foi desempenhada por um famoso
elenco composto, entre outros, pelos
artistas: Joaquim Costa, Nascimento
Fernandes, Jorge Roldão, Auzenda de
Oliveira, etc.. Pouco depois "A Maré de
Rosas", que esteve em cena no Teatro
Avenida, com grande êxito, e, mais tarde,
"O Diabo a Quatro", em cena no Eden
Teatro, na qual se revelou o grande actor
Estêvão Amarante. Em seguida a famosa
revista "O NOVO
MUNDO", que esteve em cena no mesmo
Éden Teatro, durante quase todo o ano de
1916. Essa grandiosa revista dispunha dum
grande elenco, composto, entre outros, pelos
artistas Rafael Marques, Estêvão Amarante,
António Gomes, Amélia Pereira, Julieta
Soares, Emília de Oliveira, Luiza Durão,
etc.. Tornou-se, então, popularíssimo o
célebre "Fado do Ganga",
primorosamente desempenhado pelo grande actor
Estêvão Amarante, recheado de espirituosas
piadas políticas, que todas as noites o
público fazia bisar e aplaudia com
entusiasmo. Em 1917 foi posta em cena no
Teatro Apolo outra famosa revista, "A
Torre de Babel", que esteve em cena
durante muito tempo e na qual se estreou como
empresário o grande Estêvão Amarante. No
desempenho da mesma logrou fartos triunfos,
além daquele, o grande actor Joaquim Costa.
Em 1918, veio a "Salada Russa",
posta em cena no Teatro Politeama,
brilhantemente desempenhada pela jovem
companhia Satanela-Amarante. Em 1919, após a
liquidação da revolução monárquica do
Porto, foi à cena, no Éden Teatro, a
revista "Traulitania", de crítica
alegre e mordaz à agitada época política
que se vivera meses antes. Mais tarde foi
posta em cena, desempenhada por um óptimo
elenco, composto, entre outros, pelos
artistas Aldina de Sousa (malograda e saudosa
actriz cantora), Beatriz Costa, Hortense Luz,
Álvaro Pereira, etc.. Para a Companhia de
Revista "Eva Stachino", escreveram
a bonita revista "Meia Noite", que
esteve em cena, com grande êxito, no antigo
Teatro Foz. Os libretos destas famosas
revistas - musicadas por maestros que se
tornaram popularíssimos - tiveram por base a
graça castiçamente portuguesa, as
espirituosas críticas dos costumes e as
oportunas piadas políticas, revelando um
agudo espírito de observação e totalmente
isentas da vulgar e condenável pornografia.
Através
daquelas famosas peças, os fecundos autores
proporcionaram ao povo português horas
inesquecíveis de esfusiante alegria, de
óptima disposição e magnífica paz
d'espírito. Quase simultaneamente, a
célebre "Parceria" (na qual se
destacava a "verve" irrequieta, a
graça permanente e os oportunos trocadilhos
de João Bastos) abordou, com a mesma
facilidade, o difícil género da
opereta, que teve na Europa e nessa época a
sua grande voga e desapareceu dos nossos
palcos submersa pelas grandes e faustosas
realizações do cinema. Nesse difícil
género, a célebre "Parceria" foi
inexcedível. São de citar, entre outras, as
célebres operetas "SUSI"
(adaptação), que esteve em cena no Teatro
da Trindade, tendo como principal interprete
Auzenda de Oliveira, e os originais:
"Miss J.P.C.", posta em cena no
Teatro São Luiz (grande sucesso da Companhia
Auzenda de Oliveira-Armando de Vasconcelos) e
as que foram especialmente escritas para a
Companhia Satanela-Amarante e posta em cena
no Teatro Avenida: "O João Ratão"
(brilhantemente desempenhada por Estêvão
Amarante e mais tarde adaptada ao cinema) -
"A Pérola Negra" - "O Poço
do Bispo" - "O Ás do
Foot-Ball" e o "Pão de Ló",
outro êxito de Estêvão Amarante. Por essa
época, a "Grande Parceria" também
escreveu e fez representar uma fantasia
mágica "O Bolo Rei", que teve um
enorme êxito.
Quando
a invasão de alguns jovens amadores tornou
as revistas vulgares, por muito repetidas, a
"Grande Parceria", cujas obras
continuavam sendo muito disputadas, derivou
para o difícil género da comédia alegre,
de complexa efabulação, que popularizou o
teatro francês, e muito do gosto popular. A
pedido do grande comediante Chaby Pinheiro,
especialmente escritas para aproveitamento
dos grandes recursos do magnífico
"diseur" e das suas
extraordinárias faculdades histriónicas,
naquela época dourada o famoso
"Trio" brindou a cena portuguesa
com comédias que tiveram êxito clamorosos e
entre as quais se destacam: "O Amigo de
Peniche" - "O Conde Barão"
(famosa sátira dos burgueses novos-ricos, desempenhada
por Chaby, Jesuína, Satanela, Amarante,
etc., que durante muios meses esgotou a
grande lotação do Teatro Politeama e mais
tarde foi várias vezes reposta) e o famoso
"O Leão da Estrela", outro grande
sucesso de cena, também várias vezes
reposta e mais tarde aproveitada para um bom
filme, carinhosamente acolhido pelo público.
É axiomático que só através de peças bem
efabuladas e inteligentemente dialogadas
podem brilhar os recursos dos grandes
artistas. E Chaby Pinheiro, que estava bem
certo desta insofismável verdade (pois já
tinha sofrido fortes insucessos...), buscava
no apoio da "Famosa Parceria" a
obra conscienciosa e segura, da qual ele
sacava o máximo proveito e através da qual
podia evidenciar os seus inemitáveis
recursos.
Em
1929/30, depois de muito solicitada, a
"Parceria" entregou à Companhia
dos Comediantes Reunidos (Adelina Abranches,
Aura Abranches, Maria Matos, Maria Helena,
Grijó, Raul de Carvalho, Sacramento, etc.) a
famosa comédia (adaptação) "O Domador
de Sogras", brilhantemente posta em cena
por aquela Companhia, no Teatro Politeama,
que constituíu um sucesso ruidoso e esteve
em cena durante toda uma época, salvando da
falência iminente um grupo de empresários.
Liquidada
a Parceria (por falecimento de Ernesto
Rodrigues), João Bastos,
um dos fundadores da Sociedade de Autores e
Compositores, servido pela sua grande
experiência, facilidade criadora e
excepcional faculdade de trabalho, voltou a
escrever sozinho. Para a Companhia Maria
Matos-Mendonça de Carvalho, escreveu então
as célebres e populares comédias "O
Noivo das Caldas" (desempenhada por
Maria Matos, Joaquim Almada, Mendonça de
Carvalho, etc.), "O Costa do
Castelo" (outro grande êxito,
desempenhada por Maria Matos, Maria Helena,
João Silva, Joaquim Pratas, etc., mais tarde
adaptada ao cinema, com grande sucesso) e o
"Pátio dos Milagres". Todas postas
em cena no Teatro Avenida, em todas elas a
grande e saudosa comediante Maria Matos teve
desempenhos magistrais. Mais tarde, no Teatro
Variedades, foi posta em cena, com grande
êxito, a alegre comédia "Quem Manda
São Elas", desempenhada por Maria
Matos, Vasco Santana, António Silva, etc..
Para a
Companhia Amélia Rey Colaço-Robles
Monteiro, escreveu ele, também sozinho, a
bonita revista "Nobre Povo", que
esteve em cena no Teatro do Palácio de
Cristal, no Porto, durante toda a Exposição
Colonial, que ali se realizou. Escreveu
diálogos e versos para diversos filmes, tais
como: "Varanda dos Rouxinóis" -
"Três Dias no Paraíso", etc. Em
1942, escreveu a fantasia "A Lenda dos
Sete Cravos", que foi à cena no Teatro
da Trindade e lançou no meio teatral o jovem
tenor Luis Piçarra.
É
pertinente notar um facto notável e único:
João Bastos foi, até hoje, o único autor
teatral português que, em dada época, teve,
durante muitos meses, o seu nome de autor
triunfante, ao mesmo tempo, em cartazes de
cinco teatros!
Apesar
de muito incompleta, vai longa a lista das
obras escritas e representadas, elaboradas a
sós ou de colaboração, pelo prolífero e
saudoso escritor teatral. A sua graça
oportuna - bem portuguesa - e a pureza dos
seus versos admiráveis, ficaram bem patentes
através das suas peças musicadas e das
muitas gazetilhas que escreveu para os
grandes jornais "O Século" e o
"Diário de Notícias".
Ainda
hoje, os saudosistas do bom teatro e da
"bela época", evocam as lindas
"Melodias de Sempre", que
deliciaram gerações e que, de ora em
quando, a Televisão faz recordar. Grande
número delas pertencem às famosas peças da
"Grande Parceria" que popularizaram
grandes actores e actrizes. Estêvão
Amarante tornou-se famosos e popular no
desempenho de rábulas cheias de espírito,
escritas pelo famoso grupo. Entre outras,
são de citar: "O Fado do Ganga"
(Novo Mundo) - "O Fado do Polícia"
(Torre de Babel) e "O João Ratão"
(da opereta do mesmo nome) - "O
Fredy" (Pérola Negra) - "O Cinco
d'Algés" (Salada Russa), etc., etc.
Manuel
Maria Pimentel Bastos
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