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V- A Girafa e o Pardalde Ilona Bastos |
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| Que orgulho, o da
Girafa, depois de nomeada Cientista Real! Se antes fora petulante, agora tornara-se de uma vaidade insuportável. E ai do animal que se lhe atravessasse no caminho, especialmente quando a Girafa, em passo solene e com olhar superior, se deslocava para o castelo, ou dele regressava, após exibir perante o rei as suas invenções. Certa tarde, teve um pardal a infeliz ideia de se acomodar no alto da cabeça da Girafa, quando esta, sonhadoramente, contemplava o horizonte alaranjado pelo pôr-do-sol. O passarito, que voltava cansado após um extenso voo, julgou encontrar no cocuruto da Girafa um belo poiso para retempero das forças. Assim, lá pousou as patitas e ajeitou as asas para o descanso desejado. Mas, qual descanso, qual quê! Mal se apercebeu do pardal, a Girafa deu um grito, e interpelou-o, ofendida: - Que atrevimento é este? Acaso tenho cara de árvore ou a minha cabeça parece um ninho? Percebo... Só porque tens asas e voas, pensas que podes pisar qualquer um?! - Qualquer um? Não! - respondeu o pardalito, muito atrapalhado, levantando voo. E, tentando remediar o mal, ainda titubeou - Vós sois a Cientista Real! Foi pior a emenda que o soneto. Escoicinhando, a Girafa esganiçou-se: - E tu ousas pisar a Cientista Real? Pois vais ver como também eu posso ser pássaro, ter asas e voar pelos céus fora! Logo a girafa, nossa conhecida Cientista, correu ao seu laboratório, onde misturou líquidos azuis com pós encarnados, tudo aquecendo, mexendo e decantando, de forma a obter uma poção lilás capaz de a transformar num pássaro que voasse, a grande velocidade e altitude, pelo azul dos céus. - Agora, agora é que vais ver quem voa mais alto! - exclamou a Girafa já perante o pardal, que a fitava, assustado. - Vês esta poção mágica? Com ela me transformarei num pássaro e voarei até ao horizonte. No pequenino cérebro do pardal, que ainda tremia de susto, surgiu uma súbita desconfiança: conseguiria a Girafa, realmente, transformar-se num pássaro e voar? Bom, a Girafa Cientista é que não teve quaisquer dúvidas em experimentar a sua poção lilás. O efeito não se fez esperar: logo as duas patas dianteiras se transformaram em pesadas asas de cinzenta plumagem; as patas traseiras, altíssimas, adelgaçadas, dividiram-se, nas extremidades, em dedos; abundantes penas cobriram-lhe o corpo e o longo pescoço; e um bico substituíu o focinho. - Voilá! - gritou a Girafa, triunfante. - Eis-me transformada em pássaro! Escondido entre a ramagem de uma árvore, o pardal deu uma risadinha, à socapa, e murmurou: - Belo pássaro! A Girafa, mexendo muito os olhos redondos e espantados, deu alguns passos, batendo as asas. E quanto mais batia as asas mais as pernas se agitavam, de tal modo que a Girafa Cientista - que não era mais girafa, e sim uma enorme ave - corria a toda a velocidade, sem, contudo, se erguer do solo, incapaz de voar. Desconfiada de que alguma coisa não correra como planeado, a Cientista Real aproximou-se do pardal, fingindo uma confiança que não sentia. - Então, pardal, que me dizes? - perguntou a Girafa. Sou ou não sou um pássaro? Desafio-te para uma corrida até ao lago. Veremos quem voa mais alto e mais depressa. O pardal, sem responder, bateu asas, volteando sobre a cabeça da Cientista. E depois, acelerando em direcção a casa, gritou: - Voa, avestruz, voa! Já longe, o pardal voltou a olhar para trás e, vendo os esforços da avestruz, que abanava freneticamente as asas, ainda exclamou: - Tanta esperteza e não sabe que as avestruzes são aves, mas não são pássaros... e não voam! Lá saber, sabia, pobre Girafa! Só não percebia por que motivo a sua fórmula falhara. Que pena! Estivera tão próximo de tocar o céu! |
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© 1998-2001 - Ilona Bastos - Texto e IlustraçõesSom de Fundo: Tchaikovsky, Quebra Nozes, Suite Chinesa |
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