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VI - A Girafa e o Macacode Ilona Bastos |
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| O Macaco Esperto era
realmente um espertalhão e cedo compreendeu que
retiraria vantagem em aliar-se à Cientista Real. A vida
estava muito difícil na floresta - havia pouca comida e
demasiados animais ferozes à solta - e a amizade com a
Girafa Cientista sempre resguardaria o Macaco da fome e
dos ataques inimigos. - Nada como um amigo importante! - pensou o Macaco, descascando um amendoim. Durante algum tempo, o Macaco Esperto matutou na maneira de se aproximar da Girafa Cientista, e acabou por chegar à conclusão de que o melhor seria oferecer-lhe os seus préstimos. E teria de ser muito convincente, é claro. Assim, num belo dia de Primavera, logo pela manhã, chegou-se à porta da Girafa e nela bateu com quantas forças tinha. A dona da casa, ocupada a preparar o seu leite com cereais, ficou contrariada com o banzé, e foi atender, muito zangada. - Mas, afinal, o que se passa? Isto são modos de bater à porta da Cientista Real? - reclamou ela. - Oh, não! Oh, não! - respondeu o Macaco, fazendo uma vénia exagerada. - Perdoai-me V.Exa., mas foi a emoção. - A emoção? Qual emoção? - perguntou a Girafa, ao mesmo tempo que espreitava pela porta, à procura de outras visitas. - Não estou a ver emoção nenhuma. Aliás, não está aqui mais ninguém, portanto só podes ter sido tu quem bateu à porta. - É claro, Eminência, fui eu próprio! - esclareceu o Macaco. - A emoção é este sentimento, esta grande admiração que nutro por V. Exa. que tão brilhantemente vem desempenhando o cargo de Cientista Real! - Ah, bom! - aprovou a Girafa, olhando o Macaco com mais simpatia. - Entra, entra. Queres leite com cereais? - Uma bananinha caía que nem ginjas! - exclamou o macaco, animado. A Girafa indicou a fruteira que estava em cima da mesa. O Macaco não se fez rogado e tirou imediatamente uma banana. - Mas, então, conta-me lá. - disse a Girafa. - O que te traz por cá tão cedo? O outro deu um pinote e rapidamente se postou diante da Cientista. - Vim colocar-me ao inteiro dispôr de V. Senhoria - começou o Macaco.- Como sabeis, sou muito hábil, matreiro e engenhoso. Posso ser-vos útil. A Girafa torceu o focinho, duvidosa. Mas o Macaco não perdeu uma migalha do seu magnífico entusiasmo: - Trepo às mais altas árvores, onde escuto os segredos mais sigilosos da floresta. Estou sempre vigilante. Nada me escapa. - Isso é bom... - concordou a Girafa, acenando a cabeça. - E que mais? - Tenho talento para o laboratório e para a cozinha: faço ovos estrelados, gelatina de morango e mousse de chocolate. - Então estás contratado! - disse a Girafa, apertando-lhe a pata, com os olhos a brilhar. - Serás o meu fiel assistente-cozinheiro-mordomo. - Sois boníssima! - gritou o Macaco. E, sem mais, pulou para cima da mesa, tomou balanço, deu duas voltas pendurado no candeeiro e acabou por aterrar sobre o pescoço da Girafa. - Eu sou o quê? - perguntou a Girafa, desconfiada, libertando-se do abraço do Macaco Esperto. - Sois muito bondosa. - explicou o Macaco, enquanto aproveitava para tirar outra banana. - Vereis que vos hei-de prestar muitos e valiosos serviços. - Com certeza que vais. - concordou a Girafa, com um sorriso nos lábios. - E, quanto a mim, penso que isto merece uma comemoração. - Pois comemoremos! - aceitou o outro, felicíssimo. - Prova um pouco deste precioso néctar. - ofereceu a Cientista Real, estendendo-lhe um cálice cheio de um liquidozinho alaranjado. Guloso, o Macaco não hesitou, e em poucos segundos bebeu tudo. - Gostaste? - perguntou a Girafa Cientista, atenta às reacções do Macaco.- Como te sentes? O Macaco abriu a boca para responder, mas nada conseguiu dizer, pois foi acometido de um arrepio que o percorreu desde a moleirinha até ao rabo. De imediato começou a transformar-se, perante o olhar deliciado da nossa amiga Girafa Cientista: o seu tamanho, bruscamente diminuíu; o corpo, de penas verdes, vermelhas e azuis se cobriu; e a boca, num bico forte e adunco se tornou. Empertigado, o Macaco - ou melhor, o animal em que este se transformara, - balançou sobre as patas traseiras, com os olhos muito espantados, e agitou levemente as asas, ansioso. - Um triunfo! um triunfo! - gritou a Girafa, batendo palmas. - Meu fiel assistente, transformei-te num genuíno papagaio! Um genuíno papagaio! O Macaco, ou seja, o papagaio, é que não pareceu nada satisfeito com a experiência. - Ora esta! - pensou ele - AGirafa saíu-me bem mais esperta do que eu julgava. Depois, olhou melancolicamente para a banana, já descascada, em cima da mesa, fitou a Girafa, e esganiçou-se: - Um genuíno papagaio! Um genuíno papagaio! Um genuíno papagaio! - Sem dúvida! - confirmou a Girafa, satisfeita. - Acho que nos vamos dar muito bem. |
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© 1998-2001 - Ilona Bastos - Texto e IlustraçõesSom de Fundo: Tchaikovsky, Dança da Fada do Açúcar |
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