Pára!,
insistia o Imperador. Pára, que os meus
ministros estão cansados desta valsa e em breve
recusar-se-ão a fazer o meu Reino viver e voar.
Fica, que já os meus amigos estão fartos desta
valsa!
Mas
Marta continuava a fugir. Também ela já não
tolerava aquela valsa! Também ela já a
odiava! E, na sua louca correria, atravessava
novos salões, deslizava por entre dançarinos ágeis
e suaves, por entre seres que pulavam e bailavam, que
sorriam para o ar, acenavam alegremente, mas não a
viam.
Finalmente,
a moça alcançou a entrada da nave, precipitou-se
para o ar livre e chegou ao jardim. Ignorando a
multidão dançante que povoava o cenário da noite
enluarada, Marta gritou para o céu, para a lua e
para as flores:
Fujam!
Fujam da música! Fujam da valsa! Fujam do
Imperador!
Marta
saltou, correu, voou. À sua passagem, as flores
transformaram-se em estrada, os seres dançantes
diluiram-se no ar, o vento soprou, assobiando, as
nuvens escureceram e o ar tornou-se de um frio
cortante.
Ao
longe, distinguia-se apenas um lamento musical, tão
doloroso como um lamento humano. Aos poucos, a valsa
ia soando mais abafada, e o lamento, cada vez mais
semelhante a um choro, mais parecido com um soluço,
ressaltava no silêncio.
A
menina continuou a fugir, em direcção a casa.
Saltou pela janela, tropeçando no parapeito, pisou a
alcatifa, caiu no tapete e, finalmente, atirou-se
para o sofá.
Só
que a valsa, essa continuava. Mais suave, é certo,
tão débil que não sobrava mais do que um sussurro,
um arrepio.
Parecia
que o Imperador se calara, que se fora embora.
Contudo, um soluço súbito, semelhante a um trovão,
ribombou pela rua, por entre os edifícios. Marta
levantou-se, cansada, e olhou pela janela.
O
disco voador, silencioso, escuro e triste, como que
um monstro fantástico, levantava voo e afastava-se,
no céu.
A
moça não aguentou mais e deitou-se no sofá. Estava
tão cansada que adormeceu.