Era
uma vez um rochedo. Tão alto e majestoso ele era que
chegava ao céu. E como também se estendia, em
comprimento, por muitos quilómetros, a quem o olhava
assemelhava-se a uma verdadeira muralha, uma parede
de rocha agreste mas sublime na pureza das suas
arestas e nos tons aveludados que a cobriam conforme
o sol se levantava, a oriente, ou se punha, a
ocidente.
Do
lado ocidental do rochedo formou-se uma vila muito
activa, de gente humilde mas laboriosa que se
dedicava à pesca para sustento das suas famílias.
Aninhava-se tal vila entre a montanha e o mar, em
várias linhas de casas baixas, caiadas de branco,
que orlavam a praia, de costas voltadas para o
rochedo gigantesco que lhes impedia o acesso ao
interior. Chamava-se tal vila Beira-Mar.
Também
do oriente nasceu uma pequena povoação, habitada
por honestos agricultores que lavravam as suas
terras, plantavam o trigo, a batata, as couves e as
árvores de fruto que por alturas de Março floriam e
cobriam os campos de tonalidades maravilhosas.
Dispunham-se as casinhas, de telhas vermelhas, em
redor de um jardim cuidado, fronteiro à igreja, que
dava também para a câmara, para o hospital e para o
tribunal. E esta vila chamava-se Boa-Terra.
Viviam
todos felizes, tanto quanto se pode ser feliz nesta
Terra criada por Deus: dedicados às ondas, uns, que
orientavam o seu viver pela dança das marés;
devotados à terra, os outros, que no brotar dos
caules e das folhas encontravam a perfeita harmonia!
Desconheciam-se
uns dos outros, é preciso que se diga, pois nessas
vilas não existiam telefones, telemóveis,
televisões, Internet, ou comunicação via
satélite
Não existiam também aviões. Ou
seja, não existiram até certa altura, exactamente a
altura em que começa a nossa história... Portanto,
os habitantes de um e do outro lado do rochedo
desconheciam a existência uns dos outros.
Aconteceu
que em ambas as povoações, lá pelo início da
Primavera, quando o sol se dedicou a sorrir mais
abertamente por entre as nuvens, começaram a cair
dos céus pequenas sementes de sonho. Não eram
visíveis à vista desarmada, como é evidente. Mas
quando tocadas por alguém que lhes não tivesse
defesas, conheciam artes de se insinuar no cérebro
dessa pessoa e, em poucos minutos, levá-la a sonhar.
Vão
dizer-me que se tratou de um fenómeno
estranhíssimo, e nisso não vos posso contradizer.
Mas o certo, o certo, é que aconteceu. E, por
incrível que pareça, aconteceu em ambas as vilas,
ou seja, de ambos os lados da gigantesca muralha de
rocha!
Os
sintomas vou descrevê-los para que possam ser
reconhecidos em caso de repetição do fenómeno
os sintomas consistiam num súbito entusiasmo,
num rubor que cobria as faces dos semeados, numa
leveza de passos de que pareciam ficar dotados, num
sorriso que se lhes estampava nos rostos e,
especialmente, muito especialmente, em fantásticas
ideias que, como raios, lhes surgiam nos espíritos
normalmente pouco dados a tais agilidades do
pensamento.
Continua

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Música:BOCELLI, Con te partiro
Pintura: Nicholas Roerich