| Nas coisas e
nos seres Estampo a
minha luz.
E descrevo-os, assim,
Luminosos ou sombrios,
Consoante me sinto.
Falar do que me rodeia
É, por isso, falar de mim.
Como evitá-lo?
Escrever sobre o cadeirão,
Colocado junto à janela
O tecido verde e rosado,
Amparado pela armação
Leve, em madeira clara
É dizer de mim, ou do
outro,
O que pensou o desenho,
Escolheu o tecido e os tons,
Coseu almofadas e botões,
Cortou o pinho e amaciou-o?
É falar de mim ou daquele
Que no cadeirão se senta,
E o faz seu ao longo dos
dias
E das noites?
Ou é antes recordar a
mulher,
que lhe limpa o pó?
Ou o cão, que nele se
aninha,
preguiçoso?
Ou o que construiu o
edifício
E rasgou a janela?
Continuo a pensar,
Apesar de tudo,
Que o cadeirão,
No meu olhar,
É imagem minha,
E se dela falo, é de mim,
Afinal, que estou a falar.
Lisboa,
27 de Junho de 2005
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