| Não sei se escrevo poesia Ou se a poesia me escreve.
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É presunção, decerto,
julgar-me criadora,
Chamar poesia a estas
palavras
Que debito, desajeitadas e
frouxas,
Nas brancas páginas de um
caderno.
.
Maior presunção, ainda,
Acreditar que meus actos
desconexos,
Pensamentos e gestos
perplexos,
Encerram em si a poesia, o
motor
Gerador do meu viver.
.
E, contudo, a poesia existe
em mim
E em meu redor. Sinto-a!
Encontro-a amiúde,
Em manhãs de sol radiante,
Em tardes de plúmbeo céu,
Em noites quentes de
abóbada estrelada.
.
Nem sempre, é certo, a
reconheço,
Nem sempre, é certo, me
toca e aborda
Não sei mesmo de onde vem,
Os caminhos que percorre,
Suas maneiras e manhas.
.
Dias há que a procuro em
vão,
Nas esquinas e nas sombras,
Mesmo nas iluminadas
avenidas
Que essa luz branca,
esfuziante,
Torna nítidas e confusas,
Na confusão que tudo
invade,
E cresce, se a poesia não
está.
.
É-me estranha, é-me
íntima a poesia!
.
Ténue, fugidia, forte,
impressionante,
Dá sentido ao que sentido
não tem,
Mas se a escrevo ou se me
escreve,
Isso é que eu não sei
bem
.
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Lisboa,
9 de Março de 2005
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