| Tanto necessito de harmonia, Que dos meus gestos faço
dança,
Para que a arte torne belos
Estes dias curtos do Outono.
.
Limpo cada folha da palmeira
Como quem penteia os cabelos
de oiro
De uma princesa donzela.
.
Atento, o meu olhar passeia
manso
Sobre as construções
passantes,
Quando em trânsito navego
na cidade,
E lentos desfilam edifícios
altos
Nas margens empedradas da
avenida.
.
Prendo-me aos detalhes do
mármore jovem,
Do ferro forjado da varanda
antiga,
Às minúcias doces de um
jardim cuidado,
À cortina em renda por
trás da vidraça
.
Rola-me entre os dedos a
caneta prata
Sinto-a macia, em ânsias de
apontar
As palavras prontas que
lestas irrompem
Na tarde outonal.
.
Na chegada a casa, no abrir
da porta,
Na entrada escura, no buscar
da luz,
Imito a elegância do
bailado,
Cisne encantador, fonte de
candura,
Em gestos suaves que no ar
desenho
.
E assim se passam os dias do
Outono.
Como a folha seca que ao
vento se entrega
E sonhando voa, ave por
segundos,
Cada vez mais alto, mais
longe, mais leve,
Até que o remoinho, ao
virar da esquina,
Tolha o seu caminho.
.
.
Lisboa,
16 de Novembro de 2004
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