O bairro está
alegre, não sei porquê.
Talvez
seja da chuva, que parou.
Ou
dos raios de sol, coados pelas nuvens,
inundando
a manhã de uma luminosidade bela,
que
desce pelos telhados, infiltra-se na folhagem
e
desliza para a calçada,
onde
desenha bordados brilhantes,
trabalhados
na sombra.
.
Noto
nos transeuntes um semblante animado.
Apercebo-me
mesmo do seu andar saltitante,
tão
pouco habitual neste bairro antigo.
Tantas
e tantas vezes tenho percorrido estas ruas,
observando
o cansaço nos rostos com que me cruzo!
Ou
será ilusão minha, influenciada que vou
pelas
histórias tristes que acabei de ouvir
e
pelos conselhos difíceis que tive de dar?
.
Mas
hoje não, não há cansaço, nem rostos sofridos
o
bairro está alegre. E não sei porquê.
É
certo que a manhã me sorriu,
que
não me couberam dramas, nem tragédias,
que
as respostas as tive na ponta da língua
e
que as notícias as pude dar animadoras!
.
Intrigada,
pergunto-me se Fernando Pessoa,
que
por estas mesmas calçadas andou,
que
também aqui morou ao longo de quinze anos,
notou
estes desvarios do pacato bairro
que
num belo dia de Setembro resolve descobrir-se
alegre,
vestir-se
de luz dourada, pincelar os edifícios de magia
e
brindar os seus habitantes com a graça da
Felicidade.
.
Quando
Pessoa dizia Vou num carro eléctrico,
e
estou reparando lentamente, conforme é meu
costume,
em
todos os pormenores das pessoas que vão adiante
de mim,
estaria
a referir-se igualmente a estas mudanças
bizarras,
a
estas revelações inauditas, inesperadas,
em
caminhos tão conhecidos, tão familiares
que
suporíamos não poderem apresentar para nós
quaisquer
segredos ou mistérios?
.
Repito
os passos de Fernando Pessoa.
Dirijo-me
ao Jardim da Parada.
.
Hoje,
até a estátua da Maria da Fonte, por entre as
flores,
parece
ter perdido a sua rigidez de pedra
e
adquirido movimento nos cabelos soltos,
flexibilidade
nos gestos de mulher do povo
que
reivindica a liberdade.
Acena,
risonha, às crianças nos baloiços,
à
senhora idosa de bela cabeleira branca,
que
empurra o carrinho do neto,
à
fonte, em êxtase, que lança diamantes em redor.
.
Que
alegria desgovernada percorre o bairro!
Até
me custa deixá-lo, sem saber o que fará
quando
lhe virar as costas.
Explodirá
em festivos destemperos?
Mas
o estômago, insistente, requisita almoço
urgente,
e
já abandono o jardim, passo a rua das
sardinheiras,
dobro
à esquerda e avanço, desaguo na Maria Pia,
ainda
a tempo de ver, voltando a cabeça rapidamente,
as
cascatas de luz que descem pelo casario
e
inundam o vale de Alcântara.
.