| Ontem escrevi poemas Nos canteiros do meu jardim.
Animada, afogueada, em
alvoroço,
Abraçada a vasos, folhas e
pétalas,
Inspirada ao aspirar o aroma
silvestre
Das flores, das plantas, da
seiva,
Declinei o lápis sedutor e
o papel,
Tomei a terra, o ancinho e a
colher,
Decidida, quebrei
ressequidas ramagens,
Exaltada, daninhas ervas
arranquei,
Ao solo me lancei,
confiante, e mergulhei
Minhas mãos, na terra
fértil e gentil.
Tirei pedras e raízes,
desenhei linhas
De promissores bolbos,
enterrados
Sob o húmus revolvido e
alisado.
Sementes lancei, em métrica
cuidada.
Azáleas rimei com
admiráveis ciclamens.
Margaridas de fogosas vestes
combinei
Com amarelos narcisos em
sono recatado.
Confortei o cândido
limoeiro e ergui, por fim,
Para o céu, o corpo cansado
e feliz,
As faces coradas, o cabelo
em desalinho,
Acompanhando a aragem e o
sol alaranjado
Chave de ouro de outonal
entardecer
No caminho luminoso do
Poente.
,
,
Lisboa,
28 de Setembro de 2004
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