ILONA BASTOS |
POEMAS |
. O MUNDO É ENORME Ilona Bastos Pintura: The
lifeboat,1862 - Marshall Claxton, England 18131881 .. Diz quem sabe Que o mundo é pequeno E cada dia menor será Será? . Então, porque se afunda o navio No mar tumultuoso, à vista de terra, Da multidão que nos rochedos Em lancinante choro se agita, Desesperados, os náufragos De estendidas mãos ao temporal Implorando a vida e recebendo a morte? . Diz quem sabe Que o mundo é pequeno E cada dia menor será Será? . Então, porque se enrodilha o pobre Nas pedras nuas da calçada, Entre andrajosos farrapos escondido, Em alucinantes visões perdido, Confuso, cego, imundo, Em surdo ou murmurado apelo Pedindo o pão e recebendo a fome? . Diz quem sabe Que o mundo é pequeno E cada dia menor será Será? . Então, porque se encerra o meu vizinho No ritual inócuo da educação, Sorri polido, em lacónico acenar, Se afasta, célere, chave na mão, A afundar-se no cárcere fundo Da sua crescente, imparável, amargura, Querendo ternura e recebendo solidão? . Diz quem sabe Que o mundo é pequeno E cada dia menor será Será? . Então, porque choram aqueles dois seres Lado a lado deitados sobre a mesma cama, Isolados, de lágrimas encharcados, Em soluços perpétuos, silenciosos, Impotentes, incapazes de ultrapassar A inexpugnável muralha que os separa, Desejando amor e recebendo nada? . Diz quem sabe Que o mundo é pequeno E cada dia menor será Será? . Não sei como possa ser, Se nem eu própria Dentro de mim me encontro Por vezes .... Lisboa, 6 de Outubro de 2004 .
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Pintura de Henri Lebasque
Som de fundo: Chopin, Opus 25
Mais recente actualização: 29 de Outubro de 2004