III- A Girafa e o Crocodilo

de

Ilona Bastos

                       
         
         
    Depois do almoço, estendiam-se os animais à sombra das árvores, numa regalada soneca, quando a Girafa decidiu dar um passeio até ao rio. Pensou ela que aí sopraria uma brisa fresca, que tão bem lhe saberia àquela hora do dia em que o sol aquecia mais do que nunca.

Chegada à margem do rio, a Girafa descobriu que não fora a única a ter semelhante ideia. Um crocodilo antecipara-se-lhe e descansava, indolentemente, à sombra de um arbusto.

Contrariada, a Girafa começou a raspar os cascos numa pedra, procurando fazer barulho para acordar o dorminhoco. Mas o crocodilo continuava a dormir e até ressonava alto.

Cada vez mais impaciente, a Girafa desatou a tossir, a fingir que aclarava a garganta, e a bater com as patas no chão, numa tal agitação e com tamanha barulheira que o crocodilo acabou mesmo por acordar. E não estava bem disposto, como é evidente.

Porque também ele tinha mau feitio, começou a espadanar na água, com grande alarde, fazendo a Girafa recuar, surpreendida e ligeiramente assustada. Contudo, ela ainda quis disfarçar:

- Ora, ora, compadre crocodilo, que modos são esses?

O crocodilo olhou de soslaio, e logo percebeu com quem lidava.

- Que falta de consideração! Que enorme falta de respeito! - resmungou ele. - Acordar quem dorme, importunar quem descansa! Devia era ir cuidar da sua vida...

A Girafa era muito ciosa, como já sabemos, e não aceitava qualquer reparo ao seu comportamento. Por isso ficou toda abespinhada e, recuando alguns passos, até ficar bem fora do alcance do crocodilo, atirou:

- Isso digo eu... Chegar e instalar-se como se o rio e a sombra lhe pertencessem! Como se fosse o rei! Mas vai ver que encontrou quem lhe faça frente! Vai ver!

Toda zangada, a Girafa afastou-se, enquanto o crocodilo, acalmada a agitação, voltava-se para o outro lado e dormia a bom dormir, totalmente alheio ao besoirar da Girafa.

Mas a Girafa, que, como nós sabemos, era Cientista, não estava disposta a deixar o assunto ficar por ali, e agora tinha apenas uma ideia em mente: inventar um preparado que a transformasse em crocodilo. Então é que se veria quem era mais forte e quem mandaria em quem!

No seu laboratório, a Girafa trabalhou incansavelmente, Experimentou, alterou e voltou a experimentar, até que finalmente conseguiu preparar uma poção mágica apropriada à situação.

Triunfante, a Girafa voltou à margem do rio, sem se aperceber de que o crocodilo ainda dormia. Pouco teve de esperar para que se produzissem os efeitos da sua mais recente invenção.

Tudo aconteceu rapidamente: a Girafa espirrou, sentindo comichão no focinho, e as suas elegantes patas começaram a diminuir, a diminuir, até se tornarem minúsculas. O seu corpo, em pequeno e roliço se transformou, de verde se coloriu, molezinho, molezinho, estendido sobre uma tenra folhinha. E, ao lado, ressonando, o crocodilo pareceu-lhe um monstro gigantesco, semelhante a um enorme dinossauro.

- Minha mãezinha... - choramingou, com voz fininha, a Girafa, que agora era lagartinha. - O meu invento falhou...

É claro que desta anedota da Girafa só nós é que sabemos. Mais ninguém deu por isso: o crocodilo, porque continuava a dormir e a sonhar com belos banhos no rio; os outros animais, porque não haviam assistido a nada.

A Girafa ressentiu-se, naturalmente, ficou com o amor próprio abalado. Mas não desistiu. E depois de uma noite de árduo trabalho, tecendo, tecendo sem parar, rompeu o casulo aos primeiros raios do amanhecer. Então, bela borboleta de mil cores, abriu asas e voou...

   
         
   

 

   
 

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