Mas houve um
garoto ladino que uma noite resolveu pôr-se de
atalaia.
Saiu da cama,
saltou pela janela e instalou-se no telhado, junto à
chaminé.
Assim
posicionado, não o avistou o anão, que nessa noite
resolveu voltar à suas ruins actividades.
O rapaz viu-o,
com as andas, a destruir um campo de milho, e
reconheceu-o.
No dia
seguinte, tentou contar ao irmão, mas ele não
acreditou, tomou a confidência por piada e ainda se
riu a valer.
Perante tal
reacção, o rapaz calou-se e, na noite seguinte,
voltou para o seu posto de vigia.
Nessa noite, o
anão subiu à montanha, envergando as suas enormes
asas, e de lá se atirou, sobrevoando as casas e as
ruas, à sua passagem levantando telhados, arrastando
chaminés e estendais.
Mais uma vez, o
rapaz viu-o e reconheceu-o.
No dia
seguinte, procurou contar aos pais, mas eles não
acreditaram e ainda o repreenderam por andar a
inventar mentiras sobre uma pessoa inocente.
Na verdade,
durante o dia o anão comportava-se de forma
exemplar, e de tal modo era afável o seu trato que
se apresentou como candidato à administração da
região.
Uma terceira
noite o garoto vigiou, reconheceu o anão, e,
escondido nas sombras, seguiu-o no seu percurso pelos
quintais vizinhos, onde devassou os galinheiros.
Na cidade
realizou-se, por esses dias, um grande comício,
fazendo-se campanha para a eleição do novo
administrador, e o anão não regateava cumprimentos,
sorrisos e até beijos e abraços às crianças e às
velhinhas.
Depois, subiu a
um estrado, de onde lançou um discurso eloquente.
Que bem falava
o anão, todo inchado, pronunciando palavras bonitas
que encantavam a multidão!
Prometia
defender a cidade dos monstros que a ameaçavam: do
gigante, do vampiro e até do lobisomem!
E todos o
ovacionavam, em delírio.
Sim senhor,
aquele é que era um candidato de peso!
Apesar da sua
pequena estatura, tinha coragem com fartura, e nele
depositaria o povo a sua confiança e o seu voto.
Ora o rapaz
também assistia ao comício, mas quando os outros
acenavam com a cabeça, em sinal de aprovação, ele
cerrava os dentes, com fúria; quando o povo
aplaudia, manifestando concordância, ele batia o
pé, cheio de raiva; quando à sua volta se ouviam
palavras de apoio ao orador, ele vociferava,
colérico.
E tal era a
prosápia do anão, gabando-se, pavoneando-se,
prometendo mundos e fundos, que o rapaz não
conseguiu conter-se.